MOVIMENTO EM CADEIA

A pandemia mundial causada pelo novo coronavírus afeta a sociedade de diferentes maneiras e em diferentes setores. Em países como Bangladesh, o 2º maior fornecedor de peças de vestuário do mundo e que tem mais de 4 milhões de pessoas ligadas a fábricas exportadoras de roupas, a situação é catastrófica. Grandes empresas fast-fashion, que faturam muitos bilhões ligados aos baixos custos de produção em países emergentes, estão cancelando contratos ou suspendendo pagamentos - mesmo das coleções que já estavam prontas ou em andamento. Com isso, os fornecedores, donos dessas fábricas, se vêem obrigados a demitir ou suspender os pagamentos de seus colaboradores, impactando diretamente na vida de mais de 10 milhões de habitantes entre funcionários e seus familiares. Ainda que algumas das gigantes fast fashion, como a Zara, digam que não vão cancelar os contratos, também não dizem quando irão pagar porque os pagamentos estão atrelados ao recebimentos das peças e, em um momento em que os envios estão parados porque as lojas estão fechadas e as fronteiras fechadas, não há previsão de quando esse dinheiro irá chegar. Ao mesmo tempo, quando a pandemia acabar e todos puderem voltar ao trabalho, as fábricas terão que continuar atendendo às suas contratantes, porque são as maiores do mercado e têm grande impacto no faturamento fabril. Ou seja, de uma forma ou de outra, os empresários são obrigados a aceitar as condições de maneira imperativa. As fast-fashion quebram ou suspendem contratos com suporte na cláusula de “motivos de força maior”, mas em meio a uma pandemia com mais de 5 milhões de pessoas infectadas, podemos olhar só para as cláusulas? Como essas famílias irão viver, comer? As empresas não seriam também responsáveis pelos seus colaboradores (fornecedores, funcionários etc.)? Os cancelamentos da Primark e da Matalan de pedidos em andamento, juntas, causaram um prejuízo de 2,4 bilhões em libras esterlinas, aproximadamente 16 bilhões de reais. Com reduções de faturamento dessa ordem, os empresários fabris precisam, de certa forma, fazer o mesmo movimento com seus funcionários: um quarto do 4 milhões de funcionários fabris, ou seja, 1 milhão de pessoas já foram demitidas, e outras milhares estão sem pagamentos. Ao mesmo passo em que as gigantes fast-fashion dizem que sentem muitíssimo, mas não há nada a fazer, os empresários alegam não ter dinheiro para manter seus funcionários. Dessa forma, um movimento em cadeia é formado e os funcionários do chão de fábrica, aqueles responsáveis por dar forma às roupas, por fazer com que os produtos criem vida e cheguem às lojas, são impactados com as mesmas alegações: “motivos de força maior”. O problema é que essas mesmas alegações não poderão ser usadas por eles quando não tiverem dinheiro para pagar as compras no mercado, os remédios de familiares ou mesmo, os impostos. Como manter uma cadeia produtiva saudável quando o elo mais fraco, porém fundamental, é quebrado? Alguns donos de fábricas iniciaram, nos últimos anos, um movimento para obter qualificações e melhorar suas instalações. Apesar do desejo dessas pessoas, existem desafios e questões culturais a serem superadas para que essas fábricas estejam adaptadas a um novo mundo. É preciso treinamento, novos processos, certificações, acesso a capital, dentre outras, coisas para que uma mudança no paradigma da produção de itens de fast-fashion aconteça. Esse processo que começava a ganhar força foi pausado pela crise, porém, ao mesmo tempo, sua urgência ficou ainda mais evidente. A discussão sobre a necessidade de reavaliar as cadeias de produção, fortalecendo as empresas locais e repensando a forma de produção ganha espaço em meio às inegáveis evidências de que o modelo produtivo atual está destruindo nosso planeta. Uma mudança nessa direção pode acarretar em um ganho enorme em sustentabilidade, impactando também a forma como a moda é pensada e consumida. Porém, as demandas de geração de lucros e o foco exacerbado em resultados de curto prazo dificultam os esforços de mudança. É possível associar sustentabilidade e lucro. Para isso, precisamos mudar o nosso olhar. Temos que sair do greenwashing para a consciência genuína. Capitalismo e consciência podem andar juntos. O que antes era questão de ideologia, agora é questão de sobrevivência.

Data de publicação: 31 de maio de 2020